terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Nigéria




Faz um bom tempo que não atualizo esse blog. Não havia nada de bom para escrever aqui e, pra ser bem sincera, eu continuo não tendo muitas coisas boas para dizer. Mas apesar dos pesares eu sinto que é necessário relatar as coisas que vivencio aqui.
O projeto no qual eu deveria estar trabalhando nunca começou. O governo resolveu retirar o subsídio do petróleo e o povo nigeriano se revoltou (com razão) contra o presidente. Consequentemente as escolas públicas fecharam suas portas e eu fiquei em casa chupando dedo. A palavra que mais escuto aqui na Nigéria é “tomorrow”. Tudo é para “tomorrow”. Nada aqui é fácil. Nunca há eletricidade, o transporte público é uma merda, não há internet, e a cultura deles atrapalha tudo!
É difícil descrever as barreiras que encontro todos os dias. Hoje, por exemplo, tomei banho com uma água preta. Fingi que não era comigo, fechei os olhos e joguei o baldinho de água com areia no meu corpo. É o jeito. Já desenvolvi uma super técnica de urinar em pé. Agora já como a maioria das comidas nigerianas sem ter que passar pelo inferno duas horas mais tarde.
Bom, o maior problema que enfrento aqui é a crise! Aqui na Nigéria há mais de 500 tribos, mas há apenas duas classes de pessoas: cristãos e muçulmanos. A crise é mais política do que religiosa e o problema é que o POVO não sabe disso. O governo faz de tudo para que o povo continue ignorante e para que o povo continue acreditando que essa guerra é religiosa. (Acho que já vi esse filme em algum lugar...!?) As pessoas se matam por religião aqui. Não conheço nada sobre a religião muçulmana e portanto não posso julgar, mas sou católica praticante e não admito que alguém mate em nome de Jesus. Enfim, essa viagem está sendo uma verdadeira prova de fé. Há dias em que me pergunto se Deus realmente existe, e me pergunto se ele esqueceu do povo africano. Não entendo como esse lado do mundo pode ser tão....tão...tão abandonado! Me corta o coração.
Tudo, tudo, tudo aqui é uma novela e meu estado emocional chegou no seu ápice. Vou explodir a qualquer momento.
A parte mais doida da minha trip aconteceu faz dois dias. Supostamente, enquanto voltávamos de uma cidade, um carro qualquer atropelou uma criança que morava numa vila local. Imediamente todos os homens da vila saíram correndo pela estrada com a intenção de queimar todos os carros que estavam ali. Quando eu menos esperava olhei para a rua e vi pessoas correndo, carros dando a volta, pessoas berrando. Parecia o fim do mundo. E era! O motorista do nosso ônibus havia saído do carro para conferir o que estava acontecendo e por uns 3 minutos ficamos buzinando para que ele voltasse para o veículo. Ele voltou para o “bus”e dirigiu o mais rápido que ele pôde. Fizemos de tudo para achar um local seguro para estacionar. Havia um padre (muito doido) conosco e ele não parava de dizer:
-          Vamos, corre! Anda! Se esse povo entrar aqui eles vão cortar o nosso pescoço! Vocês não entendem?

Nessa hora eu senti muita, mas muita vontade de chorar. Mas eu estava com as minhas amigas brasileiras e chorar não era a melhor coisa a fazer. Tenho cuidado delas como uma irmã mais velha. Não sei se tenho feito um “good job”mas é essa a minha intenção. Enfim, quando finalmente paramos o carro num “barzinho” eu pedi para que elas me dessem as mãos e eu rezei como nunca havia rezado antes. Há uma frase que diz:  “No creo en las brujas, pero que las hay las hay”. Nessas horas toda a fé do mundo não basta.

Olha, sobrevivemos. E eu sei que “quem procura acha”. Várias vezes eu já me perguntei o que é que eu estou fazendo aqui. Quando eu chegar em casa vou digerir melhor toda essa minha aventura e decidir o que é que eu posso retirar de bom dessa experiência.

Agora eu só sei que eu quero a minha mãe!!!!

ps: vai acabar a bateria do pc e não tenho tempo para corrigir esse post. Bear with me folks.